Alexandra Leclerc, anteriormente conhecida como Alexandra Saint Mleux, deu um novo passo em sua trajetória no universo da moda e da arte ao publicar seu primeiro artigo para a Vogue Australia.
No texto, Alexandra aborda o conceito de “gallerina”, termo que descreve mulheres que atuam no ambiente das galerias de arte e que combinam arte, cultura e moda em seu estilo. O artigo explora justamente essa conexão entre o mundo artístico e a moda, tema que dialoga diretamente com sua formação em história da arte.
A colaboração marca sua estreia como autora na revista, reforçando sua presença cada vez mais forte no cenário fashion e cultural. Nos últimos anos, Alexandra tem se destacado tanto pelo interesse pelo universo artístico quanto por seu estilo em eventos da Fórmula 1 e da moda.
Abaixo, o ASMBR ou agora, ALBR, traduziu o artigo para português, confira:
A moda não inventou a galerista — simplesmente a alcançou.
Nota do editor: Ultimamente, a galerista tem sido uma figura constante no discurso da moda. Podemos citar figuras da indústria como Phyllis Kao — uma leiloeira de arte da Sotheby’s, cujas vendas de fósseis de dinossauros e violinos Stradivarius viralizaram na internet — por reavivar esse interesse, que valoriza, acima de tudo, um senso de estilo intensamente pessoal. Como uma mulher que faz curadoria de arte — e cujo trabalho, na verdade, é definir o bom gosto — aplica a mesma precisão ao seu guarda-roupa?
Nesta entrevista, pedimos a Alexandra Leclerc, nascida Saint Mleux, formada em História da Arte pela École du Louvre e coordenadora de arte, que refletisse sobre o arquétipo e sua mitologia, e discutisse os designers contemporâneos que melhor exploram essa imagem. —Gladys Lai, diretora de marca da Vogue.
A galerista existia muito antes de a moda decidir dar-lhe um nome. Figuras como Peggy Guggenheim, famosa colecionadora de arte nova-iorquina, personificavam uma versão inicial do arquétipo: intelectual e destemida, vestindo-se não para se misturar, mas para afirmar o bom gosto como forma de autoria. Seu estilo era pessoal, radical e inseparável de seu papel como mecenas das artes.
Peggy Guggenheim compreendia que o mecenato ia além do colecionismo; ele também se materializava. Sua estreita amizade com Elsa Schiaparelli, cujos designs surrealistas ela frequentemente usava enquanto apoiava artistas, é um lembrete de que a ligação entre belas artes e moda sempre foi íntima, e não incidental. Quando Guggenheim se vestia de Schiaparelli, ela não estava simplesmente usando roupas ou alta-costura. Ela participava da mesma conversa vanguardista que animava os artistas que colecionava. Seu guarda-roupa funcionava como uma extensão de sua visão curatorial, prova de que a galeria e o ateliê há muito falam a mesma língua.
Hoje, esse legado continua em mulheres cuja autoridade é mais discreta, mas não menos poderosa. Almine Rech e Victoria Miró representam um estilo de vestir quase curatorial em si mesmo — silhuetas contidas, paletas controladas, seus guarda-roupas comunicam longevidade em vez de tendências, seriedade sem rigidez. No palco dos leilões, Phyllis Kao se tornou uma referência de estilo inesperada. Sua presença reflete uma nova visibilidade para mulheres em posições de autoridade no mundo da arte. Ela se veste em diálogo silencioso com o que está vendendo, muitas vezes ecoando os tons ou a estrutura de uma pintura, alinhando sutilmente seu visual com a obra de arte.
O que impressiona agora é como a moda começou a refletir claramente esse mundo. Sob a direção de Matthieu Blazy, a Chanel canaliza uma sensibilidade nitidamente galerista. Sua Chanel oferece roupas que parecem vividas, inteligentes e versáteis; elas incentivam a ideia de uma mulher que transita com naturalidade do metrô para sua galeria em Chelsea, sem se misturar à multidão, sem tentar se destacar, mas sim pertencendo. Seu guarda-roupa é um reflexo da curadoria de sua galeria.
Na Alaïa, a galerista surge escultural e ancorada, enquanto a The Row continua a refinar um uniforme de alfaiataria alongada que muitas mulheres do mundo da arte já adotam. O prêt-à-porter e a alta-costura da Schiaparelli apontam para uma interpretação mais surreal, lembrando-nos que a galerista também pode ser expressiva e cerebral. A galerista da Etro é nômade, e na Jacquemus, o diálogo parece ainda mais literal. O último desfile da marca para o outono/inverno 2026/2027 foi realizado dentro do Museu Nacional Picasso-Paris, e se desenrolou próximo às telas de Picasso. Nesse contexto, as roupas pareceram menos propostas sazonais e mais objetos cuidadosamente selecionados.
O mesmo aconteceu na Dior de Jonathan Anderson, cuja apresentação de alta-costura primavera/verão 2026 ocorreu no Museu Rodin. Também aqui, a relação entre arte e moda pareceu profundamente pessoal, em vez de meramente referencial. Inspirando-se nas cerâmicas esculturais de Magdalene Odundo, Anderson traduziu suas formas sinuosas e elementares em roupas e acessórios. As joias, por sua vez, remetiam às miniaturas de retratos do século XVIII de Rosalba Carriera.
A moda está abraçando a linguagem da galeria, e no centro disso está a galerista — a realidade dela, assim como o mito. Seu fascínio vem do que seu estilo representa: o bom gosto como disciplina, por um lado, mas também uma forma de se vestir moldada pelo pensamento. Seu guarda-roupa é concebido para funcionar em galerias, ateliês, feiras e leilões. Essa praticidade se torna uma elegância em si mesma. A moda não inventou a galerista. Ela simplesmente a alcançou.